quarta-feira, 14 de março de 2012

A Incapacidade de Ser Verdadeiro


Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões-da-independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas. A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa, como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias. Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça: “Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia”.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 10 de dezembro de 2011

alfabeto

Toda vez que você viaja pra outro lugar com outro idioma
Se você não sabe o idioma do lugar onde estiver
Você é analfabeto lá

Basta saber falar o idioma daquele lugar
E será considerado alfabetizado
Pois fala o idioma de lá
Mesmo que não escreva e não leia aquele idioma
O fato de saber falar já o torna alfabetizado

Vou dar exemplo

Você fala português espanhol italiano
Você viaja pra Alemanha e não sabe falar nada de alemão
Na Alemanha você será analfabeto
Pois você não sabe escrever não sabe falar e não sabe ler em alemão

Você retorna ao Brasil
Agora está outra vez alfabetizado no idioma daqui

O governo brasileiro obriga toda criança e adulto a ir pra escola
Pra ser alfabetizado

Na verdade é o dinheiro que gasta que interessa ao governo
Porque a maioria dessa gente criança e adulta
Que vai obrigada pra escola
Já estava alfabetizada em casa mesmo

Isto mesmo
Toda criança e adulto que sabe falar fácil o idioma do país está alfabetizado
Aprender a escrever e ler o que escreve será outra etapa
Em casa ou na escola

Não tem porque o governo obrigar alguém a estudar na escola
Se poderia aprender sem sair de casa

Mesmo quando alguém não sabe escrever ou ler este idioma
Já foi alfabetizado se sabe falar o idioma

Os milhões de analfabetos que o governo cita em pesquisa
Não existem

Só será analfabeto
O recém nascido
E o surdo mudokinnal

No caso do recém nascido
Só será analfabeto até começar a falar

Aprendeu a falar
Está alfabetizado


kinnal

sábado, 19 de novembro de 2011

A lenda da serpente


Conta a lenda que uma vez uma serpente começou a perseguir um vaga-lume. Este, fugia rápido, com medo da feroz predadora, e a serpente nem pensava em desistir. Fugiu um dia e ela não desistia, dois dias e nada...

No terceiro dia, já sem forças, o vaga-lume parou e disse a serpente:
- Posso lhe fazer três perguntas?
- Não costumo abrir esse precedente a ninguém, mas já que vou te devorar mesmo, pode perguntar...
- Pertenço a sua cadeia alimentar?
- Não.
- Eu te fiz algum mal?
- Não
- Então, por que você quer acabar comigo?
- Porque não suporto ver você brilhar...

sábado, 8 de janeiro de 2011

Zen


Um samurai, conhecido por todos pela sua nobreza e honestidade,
veio visitar um monge Zen em busca de conselhos.
Entretanto, assim que entrou no templo onde o mestre rezava,
sentiu-se inferior,
e concluiu que, apesar de toda a sua vida lutando por justiça e paz, não tinha sequer chegado perto ao estado de graça do homem que tinha à sua frente.
- Por que estou me sentindo tão inferior?
- perguntou, assim que o monge acabou de rezar.
- Já enfrentei a morte muitas vezes,
defendi os mais fracos,
sei que não tenho nada do que me envergonhar.
Entretanto, ao vê-lo meditando, senti que minha vida não tinha a menor importância.
- Espere. Assim que eu tiver atendido todos que me procurarem
hoje, eu lhe darei a resposta.
Durante o dia inteiro o samurai ficou sentado no jardim do templo,
olhando as pessoas entrarem e saírem em busca de conselhos.
Viu como o monge atendia a todos com a mesma paciência e o mesmo sorriso luminoso em seu rosto.
Mas o seu estado de ânimo ficava cada vez pior,
pois tinha nascido para agir, não para esperar.
De noite, quando todos já haviam partido, ele insistiu:
- Agora o senhor pode me ensinar?
O mestre pediu que entrasse,
e conduziu-o até o seu quarto.
A lua cheia brilhava no céu,
e todo o ambiente inspirava uma profunda tranqüilidade.
- Está vendo esta lua, como é linda?
Ela vai cruzar todo o firmamento,
e amanhã o sol tornará de novo a brilhar.
Só que a luz do sol é muito mais forte,
e consegue mostrar os detalhes da paisagem que temos à nossa frente:
arvores,
montanhas,
nuvens.
Tenho contemplado os dois durante anos,
e nunca escutei a lua dizendo:
por que não tenho o mesmo brilho do sol?
Será que sou inferior a ele?
- Claro que não
- respondeu o samurai.
- Lua e sol são coisas diferentes,
e cada um tem sua própria beleza.
Não podemos comparar os dois.
- Então, você sabe a resposta.
Somos duas pessoas diferentes ...



quinta-feira, 21 de outubro de 2010

vida

*


Diz a sabedoria popular que um ser humano só tem uma vida completa quando planta uma árvore, escreve um livro e tem um filho.

O lance é que, principalmente hoje em dia, plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho não requer nenhuma habilidade especial. Para falar a verdade, dá muito mais trabalho derrubar uma árvore, ler um livro e evitar ter filhos. Essas é que deveriam ser consideradas as verdadeiras realizações de uma vida.

Plantar uma árvore é de longe a mais fácil das tarefas, até passarinho faz. Aliás, faz cagando. Mas quem mora em uma cidade grande sabe como é difícil derrubar uma árvore. Já é difícil até encontrar alguma árvore para ser derrubada. E quando você consegue uma árvore para derrubar, como no caso da mangueira que estava bem no local onde meus vizinhos queriam construir uma piscina, vi que é preciso esperar semanas por um processo altamente burocrático na prefeitura. E eles ainda tiveram que contratar uma equipe especializada. E depois cortar tudo em toquinhos pequenos, pro caminhão de entulho levar. Deu para sentir o trabalho? Bem mais complicado do que comer uma manga e enterrar o caroço.

E escrever um livro? Convenhamos: qualquer babaca pode fazer isso. Eu fiz, ora bolas! E para isso só precisei relatar o que me aconteceu em uma semana de viagem a portugal. Tem mamata mais fácil? Pior que tem! E eu conheço nego que nem precisou “escrever” um livro para “ser autor” de um livro. Dois anos fazendo um blog com “piadinhas de Photoshop”, uma compilação dos melhores momentos em cerca de 70 páginas e pronto! Um livro! Com ISBN e tudo!

Agora, ler um livro... isso não é mole. Eu não estou falando sobre simplesmente ler a sequência de palavras que formam frases, as frases que formam parágrafos e os parágrafos que formam capítulos e os capítulos que formam um livro. Isso qualquer um faz. Refiro-me a entender plenamente o sentido de tudo que foi ali escrito. Cara, dá um trabalho... Para vocês terem uma idéia, eu me meti a ler “O Capital”, de Marx, quando estava na oitava série. Não entendi lhufas (mas na época achei que entendi algo). Cinco anos de intensos estudos depois (tá, nem tão intensos assim), voltei a ler o mesmo livro na faculdade. Que diferença!. Eu me eduquei anos e estudei a porra do livro durante um semestre inteiro: passei com um medíocre 6. Já para escrever o meu livro, demorei menos de 3 meses. E, se me perguntassem, afirmaria que prefiro escrever outro a encarar mais um período de eliminar matérias.

Os filhos nem discuto. Olha para a fila da farmácia e veja quantas pessoas estão comprando camisinhas, pílulas, diafragmas e etc. Depois veja quantos estão comprando hormônios de fertilidade. Manter uma vida sexual ativa e garantir que você não está fabricando um herdeiro é, de longe, a tarefa mais difícil das três. São bilhões de espermatozóides tentando a vida e você tem que se certificar que absolutamente nenhum vai conseguir cumprir a sua missão. E não existe criatura mais tenaz do que um espermatozóide. Garanto que quando você goza no chuveiro, seus espermatozóides nadam o sistema de esgoto inteiro procurando qualquer coisa para fecundar. Eles sabem que estão no lugar errado, mas não perdem a esperança e continuam nadando, tentando a sorte.

Uma vida verdadeiramente realizada não é para qualquer um. Praticamente para ninguém. Mas me lembrei agora do “Contador”, um amigo de faculdade que tirou 10 (e em todas as matérias). Esse está no caminho certo para ter uma vida completa. Acho que o mais difícil mesmo vai ser a árvore, já que evitar filhos não é um grande problema para quem perde uma noite de sexta tentando entender o que Marx escreveu naquela merda de livro.

eu

domingo, 19 de setembro de 2010

ninguém faz falta


Se te queres matar
Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo polícromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...

Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...

*



Álvaro de Campos

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A HISTÓRIA DA ÁGUIA




A águia é a ave que possui maior longevidade da espécie. Chega a viver setenta anos.

Mas para chegar a essa idade, aos quarenta anos ela tem que tomar uma séria e difícil decisão. Aos quarenta ela está com as unhas compridas e flexíveis, não consegue mais agarrar suas presas das quais se alimenta. O bico alongado e pontiagudo se curva. Apontando contra o peito estão as asas, envelhecidas e pesadas em função da grossura das penas, e voar já é tão difícil!

Então a águia só tem duas alternativas: Morrer, ou enfrentar um dolorido processo de renovação que irá durar cento e cinquenta dias.

Esse processo consiste em voar para o alto de uma montanha e se recolher em um ninho próximo a um paredão onde ela não necessite voar. Então, após encontrar esse lugar, a águia começa a bater com o bico em uma parede até conseguir arrancá-lo.

Após arrancá-lo, espera nascer um novo bico, com o qual vai depois arrancar suas unhas. Quando as novas unhas começam a nascer, ela passa a arrancar as velhas penas. E só cinco meses depois sai o formoso vôo de renovação e para viver então mais trinta anos.

Em nossa vida, muitas vezes, temos de nos resguardar por algum tempo e começar um processo de renovação. Para que continuemos a voar um vôo de vitória, devemos nos desprender de lembranças, costumes, velhos hábitos que nos causam dor.

Somente livres do peso do passado, poderemos aproveitar o resultado valioso que a renovação sempre nos traz.

*


quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Vantagens de Ser Bobo


-

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo
*



Clarice Lispector

*

domingo, 25 de abril de 2010

nada mudou






*

Como
Eça de Queirós
viu o nosso país em 1871, curioso, parece que nada mudou!

"O país perdeu a inteligência e a consciência moral.
Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada,
os caracteres corrompidos.
A prática da vida tem por única direcção a conveniência.
Não há princípio que não seja desmentido.
Não há instituição que não seja escarnecida.
Ninguém se respeita.
Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.
Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.
Alguns agiotas felizes exploram.
A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.
O povo está na miséria.
Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.
O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.
Diz-se por toda a parte: o país está perdido!"



*

quarta-feira, 21 de abril de 2010

viver como as flores...





**

— Mestre, como faço para não me aborrecer? Algumas pessoas falam demais, outras são ignorantes. Algumas são indiferentes. Sinto ódio das que são mentirosas. Sofro com as que caluniam.

— Pois viva como as flores! - advertiu o mestre.

— Como é viver como as flores? - perguntou o discípulo.

— Repare nestas flores - continuou o mestre, apontando para uma flor de lótus que crescia num pequeno banhado. - Elas nascem num lugar imundo, entretanto, são puras e perfumadas. Extraem do adubo malcheiroso tudo que lhes é útil e saudável, mas não permitem que o azedume da terra manche o frescor de suas pétalas. É justo angustiar-se com as próprias culpas, mas não é sábio permitir que os vícios dos outros o importunem. Os defeitos deles são deles e não seus. Se não são seus, não há razão para aborrecimento. Exercite a virtude de rejeitar todo mal que vem de fora. Isso é viver como as flores.
**

domingo, 18 de abril de 2010

apaixone-se




**
Apaixone-se pela
noite
Apaixone-se pela lua
Apaixone-se pela manhã
Apaixone-se pelo sol
Apaixone-se pelas canções
Apaixone-se pelo hoje
Apaixone-se por você
Apaixone-se pela vida
Apaixone-se mil vezes pela mesma coisa
Apaixone-se cada dia mais e mais
Apaixone-se por cada conversa
Apaixone-se pela dança
Apaixone-se por quem te faz sorrir
Apaixone-se pela vontade de amar
Apaixone-se por um sonho
Apaixone-se pelo amor

A vida é curta

**

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Um texto minúsculo

*

Diz certa lenda, que estavam duas crianças patinando num lago congelado.
Era uma tarde nublada e fria e as crianças brincavam despreocupadas.
De repente, o gelo se quebrou e uma delas caiu, ficando presa na fenda que se formou.
A outra, vendo seu amiguinho preso e se congelando, tirou um dos patins e começou a golpear o gelo com todas as suas forças, conseguindo por fim quebrá-lo e libertar o amigo.
Quando os bombeiros chegaram e viram o que havia acontecido, perguntaram ao menino:
- Como você conseguiu fazer isso? É impossível que tenha conseguido quebrar o gelo, sendo tão pequeno e com mãos tão frágeis!
Nesse instante, um ancião que passava pelo local, comentou:
- Eu sei como ele conseguiu.
Todos perguntaram:
- Pode nos dizer como ?!....
- É simples - respondeu o velho - Não havia ninguém ao seu redor, para lhe dizer que não seria capaz.

*

terça-feira, 30 de março de 2010

é proibido

*
É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.
É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo pôr medo,
Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague pôr tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos
Não tentar compreender o que viveram juntos
Chamá-los somente quando necessita deles.
É proibido não ser você mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,
Ser gentil só para que se lembrem de você,
Esquecer aqueles que gostam de você.
É proibido não fazer as coisas pôr si mesmo,
Não crer em Deus e fazer seu destino,
Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.
É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,
Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.
É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a sua,
Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.
É proibido não criar sua história,
Deixar de dar graças a Deus pôr sua vida,
Não ter um momento para quem necessita de você,
Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.
É proibido não buscar a felicidade,
Não viver sua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentir que sem você este mundo não seria igual
.
*

quarta-feira, 24 de março de 2010




SE PRECISARES DE UM "DEDINHO" DE PROSA


- Tardi, Dotô.
- Boa tarde. Sente-se..
- Careci não. Ficu di pé, memo.
- Sente-se para eu poder examinar.
- O Dotô é quem manda.


- Mas fale-me. O que está acontecendo?
- Ai, Dotô! Mi dá umas dor di veiz in quandu.
- Que dor?
- Aqui, óia. Nu estromagu. Beeem lá nu fundim.
- Forte?
- As veiz. Trasveiz é anssim ó, di mansim.
- E o que você faz?
- Tem veiz que eu cantu. Trasveiz eu vô pra cuzinha batê um bolu.


- Tem outra dor?
- Tenhu, sim, Dotô. Aqui, ó. Pertu dus óio.
- E essa é forte?
- Também é forte não. Quandu ela dá eu cunversu cas vizinhas I passa.


- Outra?
- Tenho sim senhô. Aqui. Anssim, nu meio das custela, pareci nu coração. Dá uns apertu aqui, ó.
- E você faz o que?
- Tem veiz qui eu choru. Trasveiz eu ficu anssim, muitu DA queta pra vê is passa.
- E passa?
- As veiz. Trasveiz eu vô pra pracinha.. Lá eu sentu num bancu vê as criança brincá prá esperá passá..


- Você mora com alguém?
- Moru não, Dotô. Sô sunzinha nessi mundão di Deus.
- Não tem família?
- Aqui tenhu não. Minha famia é todinha du interiô du sertão, pertinhu de Urandi, lá quasi I'm Minas. I vim sunzinha pra Sum Paulu tentá a vida.


- E você faz o que?
- Óia, Dotô. Eu já fiz um cadinhu di tudu nessa vida. Já trabaiei numa firma di limpeza, já cuidei di criança. Já trabaiei numa Casa di genti Rica.
Agora eu trabaio cuma mocinha qui mais viaja qui FICA I'm Casa. Ela avua num avião di dia I di noiti. Aí eu ficu sunzinha..
- Você mora com ela?
- Moru sim, Dotô. Ela dexa eu drumi num quartinhu lá nus fundu DA Casa.
- Sabe cozinhar?
- Oxa is não! Cunzinhu muitu du bem! Coisa mais simpres anssim I coisa mais di genti chiqui.
- Gosta de crianças?
- Ô, seu Dotô. É as criaturinha mais anjinha qui Deus botô nu mundu!


- Qual o seu Nome mesmo?
- Óia, Dotô. Eu num gostu muitu, mas a modi agrada a Santa, minha mainha botô Crara.
- Dona Clara. Eu sei o que a senhora tem.
- Comu anssim, is o Dotô nem incostô I'm mim?
- O que a senhora tem Dona Clara, chama-se solidão e é a causadora de toda essa tristeza.
- I issu Mata, Dotô?
- Ás vezes, sim. Mas, no seu caso bastam amigos, alguns remédios e um pouco de carinho..


Dona Clara. Vai parecer estranho e nem eu mesmo entendo porque estou fazendo isso, mas minha esposa está grávida e nosso segundo filho é para o mês que vem. Já temos uma menina. E até hoje é minha esposa que cuida de tudo. Porém, com o bebê pequeno precisamos de alguém que cuide DA Casa.


Que tal ficar conosco?
- Oxa is não! Óia, Dotô. Nunca fizeram issu pur mim não. Vixe! Vai sê coisa muitu DA boa ficá cum oceis. I careci di morá lá, Dotô?
- Sim. Temos um quarto vago, no apartamento. Podemos tentar por uns meses..O que acha?
- Dotô. É anssim como tê famia, né?
- Quase.


- Dotô. Eu num vô mais sê sunzinha. Vixe! Deus lhi pague, Dotô, a modi qui carinhu anssim, nem mainha MI dava.
- Vamos testar. Combinado?
- Cumbinadu. Dotô. Careci di eu fazê uma pregunta.. Eu num vô mais senti essas dor?
- Vamos combinar uma coisa? O dia que sentir essa dor você me procura.


- Prá modi du senhô mi inxaminá?
- Não. Prá modi nóis trocá dois dedinhu di prosa.

* Mais de 400 milhões de pessoas no mundo sofrem de depressão.
* A maioria dos pacientes deprimidos que não é tratada irá tentar suicídio pelo menos uma vez, e 17% deles conseguem se matar.
Com o tratamento correto, 70% a 90% dos pacientes recuperam-se da depressão.


* Aproximadamente 2/3 das pessoas com depressão não fazem tratamento e dos pacientes que procuram o clínico geral apenas 50% são diagnosticados corretamente.

* Segundo o último relatório da Organização Mundial de Saúde a depressão é mais comum no sexo feminino, afetando de 15% a 20% das mulheres e de 5% a 10% dos homens.
O Que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranqüila..... em silêncio..... sem dar conselhos.... sem que digam: "Se eu fosse você..."

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Livro


*
A mão aberta e espalmada acariciava mais uma vez aquele dorso, aquele tronco, aquela pele anunciada em letras douradas.
Esperta e com capas abertas como um pára-quedas para amortecer a própria.
Mas a mão do leitor de nada quis saber e enfiou-a, arquivando-a como que para sempre na estante. -
Que petulância, que despautério!
– pensava a mulher -livro.
Depois que o tal leitor havia gozado, graças ao seu corpo e conteúdo, numa relação de alguns dias, já que o leitor era um tanto lento, e considerando que, seu conteúdo era um tanto farto, resultando assim em uma semana de romance interno e externo.
Estando assim satisfeito, lhe dava as costas, como algo vencido e superado em sua medíocre vida de leitor faminto.
Mais um, mais uma, e partia para a outra prateleira a usufruir de mais um corpo, para se deleitar de outra ostra literária.
- Não se abram, não se deixem levar, não se entreguem!
– exclama a mulher livro ao ver-se sendo descaradamente, trocada por outra, ou por outro.
– Quanta promiscuidade!
Mesmo em meio à multidão da estante, sentia-se só e pensava lá com suas páginas.
Um dia ele quis me levar para sua casa, sem poder impedir, fui.
Sei que, o que o atraiu foi minha capa, é a primeira coisa que atrai alguém, em segundo lugar foi o título
- Incrível como os ditos seres humanos ainda se prendem tanto, e agem tanto, movidos por títulos!
Chegando em seu lar, ele me desnudava, me acariciava página a página com suas mãos de pianista, tocando-me como um instrumento raro.
Conheceu-me totalmente por dentro, primeiro desfrutando de minha contra-capa, degustando minha introdução, deliciando-se com minhas linhas e entrelinhas, devorando-me em capítulos, fartando-se com brilho nos olhos a cada revelação, depois chegou comigo ao prazer final, salivando com tal ambrosia literária, com olhar malicioso e saciado.
Não me abriria mais com suas mãos, não colocaria mais seu marcador de couro dentro de mim, dividindo-me em partes.
Então segurou-me fechada, assim descansei um bocado de tempo, quase adormecendo em repouso sobre seu sexo intumescido.
Doce ilusão momentânea, não me abriu mais, não me tocou, apenas arquivou-me como tantas outras, como tantos outros.
Sendo assim, seria tudo ou nada, atirei-me quando ele passava, com reflexo ligeiro, este me amparou com palma macia, não resistiu, abriu-me, vociferou uma de minhas partes mais prazerosas, não resistindo, manteve-me aberta, a devorar-me novamente.
Assim, levou-me novamente para sua cama, sorrindo.
Era só isso que eu queria, mais uma vez.
Havia valido a pena esperar, já havia se passado cinqüenta anos, até atirar-me a sua frente após decidir o arriscado suicídio com final feliz.
– A volta da mulher- livro.
Não sabia quanto duraria, mas quem sabe? Poderia tornar-se seu livro de cabeceira definitivo, e deitado sobre o criado-mudo e sob o despertador calado, eterno triângulo amoroso adormecido ao lado do amado leitor envelhecido.
*

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

As três rosas


*
Era uma vez três rosas, cada uma com sentimento diferente.A primeira, seu sentimento era o perdão.A segunda, tinha o sentimento da aceitação.E a Terceira rosa, abrigava o sentimento do amor.Certo dia um jovem descobriu em seu jardim três lindos botões de rosas.Todos os dias ao levantar-se, fazia uma visita às três rosas. Abria cuidadosamente alguns outros galhos que lhes impediam os tão necessários raios de sol das manhãs.E assim repetia-se aquele gesto todos os dias.Então a primeira rosa disse: Ele sempre vem por minha causa, pois eu sou o perdão que ele tem necessidade. A segunda rosa respondeu: Creio que ele vem mais por mim, pois eu sou a aceitação, ele deve ter aceitado em seu coração a mulher amada.E você o que acha? Perguntaram as duas, a terceira rosa. Essa nada respondeu, permaneceu em silêncio.No dia seguinte o jovem chegou-se as três rosas e as colheu. Conduziu-as a um cômodo de sua casa onde havia um quadro de uma bela mulher, com a seguinte inscrição: Ao meu amor, antes de partir deixarei semeado no nosso jardim meus sentimentos de perdão, por que te perdoei; De aceitação, por que no coração te aceitei... E de amor, por que sempre, esteja onde estiver te amarei.Depois que o jovem deixou as três rosas embaixo do quadro e ausentou-se, as duas rosas primeiras entreolharam-se, e soluçando abraçaram a terceira.Compreenderam que o maior sentimento é o amor. Por que este, não se exalta, não inveja, não compete. Por que ele é amor.Eternamente amor.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Você aprende


**
Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma.E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança.E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas.E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo.E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam...E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso.Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.Descobre que se leva anos para se construir confiança e apenas segundos para destrui-la, e que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida.Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias.E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida.E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.Aprende que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam, percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.Descobre que devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos.Aprende que as circunstâncias e os ambientes tem influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos.Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser.Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto.
Aprende que não importa onde já chegou, mas onde está indo, mas se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve.Aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as consequências.Aprende que paciência requer muita prática.Descobre que algumas vezes a pessoa que você espera que o chute,quando você cai é uma das poucas que o ajudam a levantar-se.Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiências que se teve, e o que você aprendeu com elas, do que com quantos aniversários você celebrou.Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha.Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes, e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não lhe dá o direito de ser cruel.Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não sabe amar, contudo, o ama como pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem que aprender a perdoar-se a si mesmo.Aprende que com a mesma severidade com que julga, você será em algum momento condenado. Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte.Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás, portanto, plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores...E você aprende que realmente pode suportar... que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais.
**
(Willian Shakespeare)

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

meus versos


**
Meu verso vem de paulo, de joão, de pedro , de joana, de maria. Do bêbado cantando à luz do dia. Do louco adormecido na calçada. Vem do migrante, esperançoso e aflito. Meu verso vem do coro dos sem-nada. Daqueles que precisam do meu grito. Meu verso vem dos negros, vem dos índios. Do sertanejo. Vem dos favelados. Vem dos idosos, dos abandonados. Dos que vagabundeiam, andarilhos. Vem dos malditos, amaldiçoados. Do maluco de rua, dos drogados. Das putas, dos ladrões, dos maltrapilhos. Não vem do intelecto. Vem da alma. Não vem dos livros. Vem do coração. Vem da evidência. Da intuição. Do dia-a-dia. Da observação. É simples. É comum. É verdadeiro.

**

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

sonhos


***
Cada um tem de mim exatamente o que cativou, e cada um é responsável pelo que cativou, não suporto falsidade e mentira, a verdade pode machucar, mas é sempre mais digna. Bom mesmo é ir a luta com determinação, abraçar a vida e viver com paixão. Perder com classe e vencer com ousadia, pois o triunfo pertence a quem mais se atreve e a vida é muito para ser insignificante. Eu faço e abuso da felicidade e não desisto dos meus sonhos. O mundo está nas mãos daqueles que tem coragem de sonhar e correr o risco de viver seus sonhos.

***

quinta-feira, 21 de agosto de 2008


Arquivo do blog